terça-feira, 16 de junho de 2015

Sustos sob uma linda paisagem

Já se passaram dez dias desde o último post, mais de três semanas que chegamos aqui e a minha história ainda não saiu do primeiro capítulo...rsrsrs

Tudo o que parecia grave no começo, começa a perder a importância. Os problemas iniciais vão ficando pequenos e vamos nos acostumando com tudo. Por isso, os sustos que levamos ainda no primeiro dia nem parecem mais importantes, mas acho que valem uma "breve" postagem.

Bem, ao sairmos um pouco frustrados do aeroporto, fomos para a fila dos táxis. Estávamos com quatro malas grandes e mais duas de mão. Assim, pedimos para o cara que controla a fila um carro maior. Ele disse que não era pra gente se preocupar que os taxistas davam um jeito. Certo!
Pegamos o próximo táxi disponível e o motorista era um senhor com traços indianos. O carro era um Prius e eu tive certeza que as malas não caberiam nele quando o taxista abriu o porta-malas.
Ele começou a reclamar em uma língua que não sei qual é, mas conseguiu enfiar três malas no bagageiro. A outra ele colocou de ponta-cabeça no banco do passageiro e mais murmúrios estranhos. Sentamos no banco de trás com as malas de mão no colo e eu disse o endereço onde deveria ir. Ele não entendeu de primeira, eu repeti e o silêncio se instaurou.
Com os vidros abertos (pra que ar-condicionado?), seguimos o trajeto.
Eu e a Ju fomos curtindo a paisagem, trocamos algumas frases e, de repente, o trânsito para.
Pelo que li depois, parece que estavam fazendo um protesto contra os preços abusivos dos imóveis em Vancouver (apóio essa ideia).
O taxista começa a ficar nervoso, mais uns resmungos na língua dele e decide mudar de caminho.
Entra numa rua residencial e começa a acelerar. A rua vira uma avenida larga e ele aumenta a velocidade. Algumas curvas e nada dele diminuir. Um semáforo e estávamos salvos...
Que nada! Mais velocidade!
Por um momento, tive a certeza de que ele bateria aquele carro.
Um trânsito em uma ponte...que felicidade!
Nunca pensei que ficaria feliz com um engarrafamento.
Depois de mais algumas emoções, chegamos na rua da casa que havíamos alugado pelo site Airbnb.
Tinha dado o número da casa para o motorista, mas ele não conseguia enxergar de dentro do carro. Sem pensar duas vezes, ele para o carro no meio da rua e me pergunta "é essa?". Eu respondo "não tenho certeza, nunca fiquei aqui".
Aí, perdi o "amigo".
Começou a esbravejar, desceu do carro e começou a ver os números das casas. Não sabia se descia também ou não, mas resolvi ser solidário.
Sim, era a casa!
Mais algumas frases na língua indiana em tom nervoso e descarregamos as malas.
Ele me fala o preço e era um pouco a mais do que a tabela oficial dos táxis do aeroporto de Vancouver. Achei melhor não discutir e ainda dei uma gorjetinha.
Sou bonzinho demais, às vezes.

Enfim, a casa! O lugar onde iríamos morar no primeiro mês da nossa vida canadense!
Por fora, ela parecia simpática, mas destoava um pouco das outras casas da vizinhança. Parecia mal-cuidada e as flores da entrada, que estavam bem bonitas, escondiam o jardim meio "largado" que ficava atrás.
Percebemos que as outras casas tinham jardins lindos e todas elas eram grandes, sempre sobrados com muitas janelas. O bairro era bem residencial.
Bem, já sabia que não teríamos a casa toda para nós. Na verdade, o dono nos alugou a tal da "garden suite" que em tradução livre seria "suíte do jardim". Ele havia orientado que a nossa entrada era do lado esquerdo da casa e que a chave estaria embaixo do capacho (que confiança!).
Cruzei o jardim com as primeiras malas e vi uma porta lateral descendo três degraus. Debaixo do capacho cheio de folhas secas e algumas teias de aranha em volta, encontro um envelope com uma chave dentro.
Antes da Ju chegar com as outras malas, decido abrir a porta...
Um susto (que agora parece ser um pouco de exagero), mas a casa não é bem como nas fotos...claro!
Umas manchas no carpete, um cheiro de mofo e muita diferença com o que o dono havia descrito.
Volto pra ajudar a Ju com as malas e ela já percebe minha cara.
Dou aquele sorriso nervoso e digo "é...não é bem como ele falou..."

Se eu já estava achando a casa suja, imagina a Ju!
Aí, começamos a reparar nos "problemas". Não tinha TV, não tinha mesa para comer (mas tinha dois sofás???), o banheiro era minúsculo (tipo com a privada encostada na parede e a parte do chuveiro com 1,90m de altura sendo que eu tenho 1,92m) e não achávamos a lavadora e secadora que o dono havia prometido.
Reparamos em uma outra porta ao lado da de entrada e decidimos abrir. Dava para o porão da casa "literalmente". Com um monte de tranqueira jogada, muitas teias de aranhas e uns canos aparentes, achamos que não deveríamos entrar ali.
Sentamos na cama e percebemos que o edredom fedia...
Sem querer fazer drama, mas naquela hora tive vontade de chorar.
Como que alguém aluga uma casa daquele jeito?
Por que dizer que era uma "suite do jardim" quando, na verdade, era um porão?

Parecia que ninguém entrava lá desde 1995! Uma breve inspeção da Ju e ela diz que não tem condições de ficar ali. Estava tudo imundo...desde os talheres até o azulejo do banheiro!

Não sabia o que fazer. Comecei a mandar mensagens pro dono da casa dizendo que não era como ele tinha prometido. Onde estava a TV? Onde estavam a lavadora e secadora?
Ele começa a responder dizendo que a lavanderia ficava no porão, ao lado da nossa "suíte". Sim! A porta do medo! Rsrsrs
Desbravamos as teias de aranha e os canos e chegamos na "lavanderia". Aquilo sim era sujeira.
As máquinas funcionavam com moedas! Sim, teríamos que pagar para lavar e secar nossas roupas.
Ok, entendo que é assim em muitos lugares, mas ele nunca mencionou que deveríamos pagar pela lavanderia. Já tinha pesquisado isso antes de alugar e foi um dos motivos que nos fizeram escolher essa casa - ter uma lavanderia própria.
Reclamamos mais uma vez via mensagem e ele respondeu dizendo "estarei aí em uma hora".

Ah, que hora difícil!
Eu só queria tomar um banho e dormir depois de quase 18 horas de viagem, mas comecei a procurar hotéis disponíveis na cidade. Queríamos ir embora dali. Não dava pra dormir naquela roupa de cama, não dava pra usar o banheiro...
Mandei mensagem pra única pessoa que conhecia na cidade. Uma amiga que trabalhou na Disney comigo em 2002 e depois nunca mais nos vimos pessoalmente. Ainda bem que existe o Facebook nessas horas!
Coitada. Entrou no desespero comigo e começou a procurar hotéis pra mim. Até ofereceu a casa dela por uma noite, mas ela tem um filho pequeno e já estava hospedando a mãe que tinha vindo do Brasil.
Não dava para incomodá-la.

Como não consigo pensar direito quando estou com fome (rsrs), decidimos comer e pensar melhor no que fazer.
Era por volta das 4 da tarde de um domingo. Quase tudo fechado e vemos um pub com algumas pessoas dentro.
Decidimos entrar e sentamos em uma mesa na janela.
Entre o movimento dos pedestres e os pedidos para a garçonete que falava muito rápido, procurávamos hotéis disponíveis e pensávamos nas nossas possibilidades.

Minha amiga não encontrava nada por menos de 200 dólares a noite e nós também não. Ah, e estávamos sem carro.

Pensamos e repensamos. Já de barriga cheia, decidimos voltar e esperar o dono da casa vir falar com a gente.
Ao caminhar de volta, vimos que o bairro era muito legal. Várias opções de restaurantes, lojas e mercados a três quadras pra cima. Parques e uma ponta da praia a dois quarteirões pra baixo.
Estávamos numa casa ruim, mas com uma paisagem boa.
Não se pode ter tudo, né?

O dono da casa chega por volta das 5 da tarde e parece ser mais novo do que a gente. Ok.
Ele é simpático e logo digo que a casa não é como ele prometeu. Ele diz que entende e começa a explicar...
Com uma boa lábia, fala que não quer que a gente fique infeliz com a casa, que o preço é baixo se levarmos em consideração as casas do bairro, explica que não mora lá e que aluga a parte de cima para várias pessoas, que a lavanderia é dividida com essas outras pessoas, dá as moedas para lavarmos roupa a primeira vez e promete mandar uma TV no dia seguinte.
Reclamamos da limpeza e ele diz que um casal ficou lá o mês anterior e que ele mesmo havia aspirado o carpete aquela manhã. Também diz que lavou a roupa de cama.
Pelo jeito, limpeza não era o forte dele...

Sem ter muitas opções e sem 1 milhão na conta bancária, decidimos ficar.

Saímos a pé para comprar alguns produtos de limpeza e um jogo de lençol. Encontramos uma loja de chinês aberta com tudo que precisávamos e barato! Abençoados imigrantes chineses!

Pra encerrar mais esse post gigante, só posso dizer que a Ju levou dois dias para limpar a nossa "suíte de jardim vulgo metade do porão" e que a segunda parte do pagamento do aluguel teve um desconto de 50 dólares porque o dono considerou a ajuda com a limpeza que ela tinha dado. Rsrs
Gastamos mais do que havíamos planejado com coisas que estavam "garantidas", como travesseiros, edredons, pratos, cabides, etc. Porém, depois da limpeza e dos novos itens, a casa já parecia mais uma suíte do que um porão.

Ah, a TV só chegou 5 dias depois e não pega canal nenhum porque aqui não tem TV aberta! Rsrsrs

Também quero terminar dizendo que não passamos nenhum sofrimento e não quero soar mimado, mas que foi um choque encontrar a casa que havíamos reservado para passar o primeiro mês tão suja e sem os itens prometidos durante a reserva, foi sim!
Depois do trabalho pesado da minha linda esposa e de 22 dias, tudo parece pequeno e distante...

Agora, reservamos uma casa nova para o segundo mês. Fomos visitar e é limpa!! Sem carpete!!
No meio do mato, mas tudo bem. Como disse antes, não se pode ter tudo nessa vida, né?

Nos próximos posts vou tentar colocar fotos e prometo textos menores.

Abraços!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Nascendo de novo

Conforme prometido e também porque já estou esquecendo alguns detalhes, nesse segundo post vou contar como foi o nosso tal "landing", ou seja, nossa chegada no Canadá com os papéis de residência permanente.
Como o processo todo é "remoto", já que estávamos no Brasil e mandamos os documentos pra cá, o visto de imigrante vem com um data de validade e tínhamos que entrar no Canadá antes disso para dizer "sim, queremos mesmo mudar". Só aí viraríamos residentes permanentes mesmo. O visto em si é até anulado, por isso não podemos sair e voltar pra cá antes da chegada do documento de residência, chamado "Permanent Resident Card".
Assim, ao descer do avião, ainda tínhamos o último passo do processo de imigração. E será que fiquei ansioso com isso? Quase nada...
As chances de sermos barrados na entrada são quase inexistentes, mas como pesquiso muito essas coisas na internet, já tinha ouvido casos onde as pessoas tiveram que voltar. Tudo bem que eram vistos de estudo ou trabalho, mas sempre bate aquele medinho...

Bem, pegamos nosso vôo com conexão em Dallas e a passagem pela imigração americana foi bem tranquila. Só falamos que estávamos em trânsito para o Canadá e a agente não perguntou mais nada. Carimbou e pronto.
O primeiro "sustinho" foi quando passamos pela esteira de bagagem e as nossas malas, que deveriam ir direto para Vancouver, estavam no chão. Na verdade, só duas das quatro malas estavam lá. Fomos perguntar e os funcionários da American disseram que tinha sido um erro. Perguntamos se deveríamos esperar as outras duas e disseram que não, mas que tínhamos que levar as que estavam lá para uma esteira de transferência de bagagem.
Fizemos isso e achamos que nossas malas não iam chegar, mas melhor confiar do que desesperar...

Ao chegar em Vancouver percebemos que o aeroporto estava cheio e a primeira fila de imigração estava grande. Essa é a fila que todo mundo tem que passar. Esperamos uns 20 minutos. A agente de imigração foi "normal". Conferiu o visto, falamos que estávamos imigrando e ela nos mandou para uma outra fila. Na verdade, tipo uma área fechada ao lado das esteiras de bagagem. Fomos pra lá e uma recepcionista nos aconselhou a pegar as malas primeiro porque o processo podia demorar.
O primeiro medo foi vencido: nossas quatro malas chegaram! E rápido! O que é um milagre porque sempre somos os últimos.

Voltamos para a área de imigração e a recepcionista nos deu um papel amarelo com o horário: 12:07. Nunca vou esquecer.
Ela pede pra gente entrar na fila da esquerda. Vimos que a fila da direita estava enorme e agradecemos. Mal sabíamos o que nos esperava...

Só uma pessoa na nossa frente e a senhora oriental nos chama alguns minutos depois. Ela faz algumas perguntas e nos explica que o papel dela é só passar alguns informações para os imigrantes. Nos dá um livreto muito legal com várias informações importantes e outros formulários. Aí, nos manda seguir para a fila....peraí! Que fila? Aquela enorme que mais um monte de gente entrou na nossa frente?
Isso mesmo, amiguinhos!
A fila com os vistos de estudante, de trabalho e mais um monte de zica que possa surgir!

O bom é que era uma fila com cadeiras. Mas era um tal de "senta e levanta" que uma hora achei que seria melhor estar de pé de uma vez.
Não sei se porque era domingo ou se era hora do almoço, mas só havia dois agentes de imigração atendendo. Uma oriental com uma cara fechada e um cara barbudo nada amigável. Os dois demoravam muito com cada caso e, às vezes, mandavam as pessoas sentarem numa fila secundária enquanto eles ficavam olhando o computador ou iam para uma salinha atrás dos guichês.
Pelo andar da carruagem, calculamos que demoraria umas duas horas para sermos atendidos.

Aí, um agente mais simpático começa a passar na fila e perguntar o caso de cada um. Falamos o nosso e ele pede para esperarmos ali mesmo. Ele parece chamar a atenção dos dois agentes e, depois de alguns minutos, aparecem mais dois para atender.
A fila vai ficando cada vez maior e o "simpático" volta causando. Pede para ver nosso papel amarelo e faz uma cara de assustado.
Vai lá nos guichês e conversa com os agentes apontando pra mim: "aquele cara está na fila há quase duas horas. Duas horas!".
E era verdade. Olhamos no relógio e já era 1:45. Porém, não foi nada legal ter todos os agentes de imigração olhando em minha direção!

De repente, chegam mais uns 3 agentes, abrem um outro lado da fila, remanejam as pessoas e, por fim, somos os próximos. Adivinha quem nos chama? A japa mal-humorada!
Bem a que eu estava torcendo para não cair...

De uma maneira bem grossa, ela pede os nossos passaportes. Sem bom-dia, sem sorriso, sem olhar na nossa cara...
Entregamos e explicamos que estávamos fazendo o "landing" como residentes permanentes. Ela pede os papéis de confirmação e diz que vai fazer umas perguntas.
As perguntas foram bem mais fáceis do que eu esperava, apenas coisas do tipo "já tiveram visto negado para algum país", "já foram deportados", "já cometeram algum crime", etc.
Negamos tudo (rsrs) e ela nos manda para a fila secundária - o banco do desespero.
Ficamos lá e ela olhando o computador...só a vi digitando uma vez...nada de salinha escondida...nada de levantar da cadeira...
Todo mundo indo embora e a gente esperando. Depois de uns 10 minutos que pareceram 100, ela nos chama tipo "vem aí".
Pergunta em qual endereço vamos ficar, passo os dados pra ela...ela manda a gente assinar os papéis de confirmação e "ok, é isso".
"É isso?"..."Sim".
Agradeço e nada...nenhum "de nada", nenhum "welcome to Canada", nenhum "parabéns", nenhum "tenham uma boa tarde"...

Saímos sem ter certeza de quanto tempo vai levar para os PR cards chegarem, sem nenhuma informação do que fazer com os papéis de confirmação e tal.

Confesso que foi meio frustrante. Tinha lido alguns relatos de imigrantes que recebem um "bem-vindo ao Canadá" e até um "bem-vindo ao seu novo lar", por isso esperava algo similar, talvez um sorriso, mas nunca achei que a "moça" ia ser mais grossa do que os agentes de imigração de Miami!

Descobrimos uns dias depois, através de uma amiga que mora aqui, que esses papéis de confirmação da residência permanente são muito importantes e que temos que guardá-los com muito carinho porque não tem como tirar segunda vida. São um tipo de "certidão de nascimento" canadense para estrangeiros.

Então, nascemos de novo!
Foi uma cesária demorada e a médica do parto nem deu o tapinha na bunda...
Está mais para um: "Vai, Vand! Ser canadense na vida!"

Ia contar do taxista e da chegada na casa que alugamos, mas pra variar, esse post já tá um livro!
Quero ver quem teve paciência de ler...rsrs
Aguardem cenas do próximo capítulo.

P.S.: Mais uma vez, gostaria de agradecer a todos que comentaram aqui e no Facebook, que curtiram meu post e que compartilharam o link do meu blog. Muito obrigado! Fiquei muito feliz! Isso me dá força para continuar escrevendo.